Calma e raciocínio acima de tudo

April 23rd, 2009

Na atividade aérea, sempre dizemos que a segurança vem em primeiro lugar. Por mais criteriosos que sejamos em relação à segurança, nunca estamos livres de uma emergência. E é nessas horas que você é cobrado subitamente pelo destino a mostrar o que aprendeu. Porém, por mais conhecimento e experiência que se tenha, uma emergência não pode afetar o seu raciocínio lógico.

O caso abaixo aconteceu ontem na Florida, EUA, com um piloto de 22 anos e seu amigo voando para o evento aéreo Sun and Fun 2009, em Lakeland, naquele mesmo estado. Curiosamente, eles estavam com duas câmeras fixas filmando o voo, e consequentemente o incidente. Me admirou a calma do piloto, que foi determinante para um desfecho favorável e, felizmente, nada passou de um grande susto.

Logo nos primeiros voos de instrução, já começamos a treinar emergências. E você nunca sabe quando uma emergência vai acontecer. Por várias vezes, meu instrutor me pedia umas curvas e tal, pra me distrair, e do nada brrruuuuummm, motor caindo. “Estamos em emergência, comandante Dutra, e agora?” Nessas situações, há três palavrinhas mágicas que nunca mais podemos esquecer:

VOE, NAVEGUE E COMUNIQUE!

  • VOE – a primeira coisa a se fazer SEMPRE, antes de qualquer outra coisa. Estabilizar o avião em um voo planado é primordial. Até um Boeing 747 plana muito bem por vários quilômetros se estiver na atitude correta. Se você perder o controle do pássaro por causa do susto, as chances de um bom desfecho são mínimas.
  • NAVEGUE – escolha imediatamente para onde ir e comece os procedimentos para chegar lá e tentar um pouso seguro. O ideal é sempre “voar apoiado”, observando o solo e tendo em mente possíveis campos de apoio para a eventualidade de uma emergência.
  • COMUNIQUE – agora sim há espaço para coordenação, seja com o piloto ao seu lado e/ou através da fonia via rádio, avisando de sua emergência, comunicando o local e a intenção de pouso. Com altura suficiente, dá para tentar verificar o que aconteceu, tentar dar a partida no motor novamente, etc. Mas jamais deve-se fazer isso antes dos dois itens acima.

No Brasil e em grande parte do mundo a frequência VHF 121,50 MHz é reservada para situações de emergência. Supostamente os centros de controle de tráfego aéreo estão sempre na escuta dela. Em casos de emergência alta, onde normalmente dá tempo de coordenar bem as ações, é fundamental sintonizar 121,50 MHz e reportar a emergência, de forma que o serviço de busca e salvamento (SAR) seja acionado imediatamente. Felizmente, até onde se tem notícia, o SAR é muito eficiente em nosso território.

Eu espero nunca precisar passar por isso na vida, mas de forma alguma podemos negar essa possibilidade. Só nos resta estar sempre preparados e manter a calma acima de tudo.

Não tenho dúvida que a aviação é o meio de transporte mais seguro que existe (talvez o segundo, depois do elevador). Mas isso não se dá por acaso, e sim pelo respeito e comprometimento de todas as pessoas (pilotos, mecânicos, tripulação, controladores, pessoal de terra, pessoal de carga, etc…) que movem as engrenagens dessa bela atividade.

Batendo asas

April 21st, 2009

O inverno no sul do Brasil já está se anunciando, pra tristeza de quem não gosta de acordar muito cedo, e pra alegria de nós aviadores (depois explico por que).

Hoje o relógio despertou às 6h00 da madrugada. Feriado, dia perfeito para dormir até meio-dia (e assim o faria, claro, se não tivesse voo). Estava um friiio fora, cobertor tão quentinho dentro. Muito preguiçosamente, peguei o celular para pegar a observação meteorológica do aeroporto Salgado Filho, só pra confirmar que devia estar um puta nevoeiro e eu ia poder continuar dormindo feliz.

METAR SBPA 210800Z 00000KT CAVOK 10/10 Q1022

SBPA = Aeroporto Salgado Filho, Porto Alegre
210800Z = Observação do dia 21, 0800 UTC (5h00 local)
00000KT = vento calmo
CAVOK = teto e visibilidade normal pra voo visual
10/10 = temperatura e ponto de orvalho ambos a 10 graus
Q1022 = pressão alta (típico de dias frios)

CAVOK era tudo o que eu não queria ler. 10 graus, 100% de umidade, nada de vento: as condições perfeitas para um grande nevoeiro. Mas não, eu teria que levantar. Estupidamente esperei a observação das 6h00, que estava exatamente igual. Ainda não contente, levantei e abri a janela. A observação só podia estar mentindo. Minha referência de visibilidade aqui de casa, no alto do bairro Petrópolis, é o morro da polícia. Se eu ver ele, a visibilidade está muito boa. Lá estava ele, lindo, cheio de antenas piscantes me dando bom dia. Puta que pariu, é pra eu levantar mesmo.

10 segundos depois de lavar o rosto eu estava super feliz. CAVOKasso, nada de vento, dia lindo, frio, tudo que qualquer piloto sonha. Me fardei, um copão de iogurte, e me toquei pro aeroclube. O sol não tinha nascido ainda, mas a aurora já estava lá anunciando a sua chegada em breve.

Em dias frios, com alta pressão, o ar está muito mais denso, e isso facilita muito na sustentação do avião no ar. Ademais, quanto mais denso o ar, melhor a performance do motor, pois com mais ar, se tem uma queima melhor, logo o motor produz mais potência útil. Um bom observador nota essa diferença nos carros. Como muito raramente usamos toda a potência que o motor do carro pode nos oferecer, isso não faz diferença na prática. Num avião não. Decolamos com o motor “full power” e qualquer cavalo a mais faz uma grande diferença na performance e na segurança da operação. Além de tudo isso, o ar frio normalmente é “laminar”, muito estável. Fica uma delícia de voar. Em dias muito quentes, como há muita movimentação vertical de ar (convecção), é um saco, você briga com a turbulência, e geralmente só encontra ar laminar lá pelos 3.000 pés.

Hoje comecei uma fase muito importante do meu treinamento, que são os TGLs (touch-n-go landings – toque e arremetida). Basicamente decolamos, fazemos o circuito de tráfego padrão, pousamos, decolamos de novo e assim sucessivamente por uma hora. Se o avião não estiver estabilizado na final, arremete-se ainda em voo. É a parte mais complexa de todo o treinamento inicial pra piloto, pois a carga de trabalho é imensa. Algo do tipo:

  • Flaps 15
  • Potência total
  • Anuncia mínimos atingidos (2100 RPMs, pressão do óleo ok)
  • Solta o avião do chão a 55 mph
  • Sobe a 65 mph até 320′ (altitude de aceleração)
  • Anuncia em caso de pane, pouso em frente, se der ainda na pista
  • Flaps up e segue subida a 70 mph
  • Checklist pós-decolagem
    • Flaps up
    • Motor 2300 RPMs
    • Farol de pouso desligado
    • Instrumentos checados (pressão, temperatura…)
  • Curva à esquerda pra perna de través
  • Curva à esquerda pra perna do vento
  • Cruzando 520′, anuncia em caso de pane, retorna pra pista (altitude de retorno)
  • Nivela a 620′, motor 2200 RPMs
  • Checklist pré-pouso
    • Nível de combustível
    • Seletoras de combustível abertas
    • Mistura rica
  • Cruzando o través do ponto de toque, potência mínima, aquecimento do carburador aberto
  • Drena a velocidade pra 70mph e começa o voo planado
  • Curva à esquerda pra perna base
  • Rajada pro motor não esfriar demais
  • Curva à esquerda pra final
  • Alinha com a pista, define a rampa
  • Aos 100′ de altura, decide se vai pra pouso ou arremete, se não estiver estabilizado
  • Pouso estolado, com as 3 rodas no chão
  • Alinha o avião corretamente na rolagem na pista
  • Fecha o aquecimento do carburador
  • E tudo de novo…

Em uma hora, sem vento, dá pra repetir a sequência umas 12 vezes até. Hoje, como eu fiz alguns repasses, pois fazia 3 semanas que não voava, repeti a sequência 8 vezes. Fiz 6 pousos bem sucedidos e tive que arremeter duas vezes porque calculei a rampa de planeio mal. Na verdade eu fico com medo de bater nas árvores do condomínio Terra Ville, que fica na final na cabeceira 26, então tenho a tendência de chegar alto na pista. É um pouco de ilusão de óptica, eu sei, mas vai convencer o meu cérebro disso. Enfim, falta de prática. Quando pouso na cabeceira oposta (08), geralmente calculo a rampa certinho, pois não tem obstáculos na final.

Como dá para ver na sequência acima, é uma carga de trabalho enorme. Lembrando que tem que fazer tudo isso coordenando com o instrutor, que na verdade é um co-piloto ali (quem voa é o aluno), e coordenando as manobras via rádio com as outras aeronaves na área.

Cada vez meu instrutor faz menos coisas, o que está correto. Ele me diz o que fazer, me tira dúvidas e o resto é comigo. Claro se eu fizer uma cagada, ele vai tomar conta. Mas a ideia de agora em diante é que eu pare de voar “apoiado” nele. Quando quero alguma opinião sobre qual procedimento tomar, normalmente a resposta é sempre a mesma: “não sei, tu que és o comandante”. Acho legal isso, pois me força a tomar atitudes.

Pilotar um avião é fácil. A diferença entre um comandante e um mero piloto está nas atitudes. O avião voa rápido e não pode parar pra esperar, então você tem que ser rápido e muito assertivo nas decisões. Felizmente minha personalidade me ajuda muito nisso, pois costumo ter uma linha raciocínio bastante rápida e objetiva.

Voos no Google Earth

Voos no Google Earth

Tenho traçado quase todos os meus voos com o GPS e baixado tudo pro Google Earth depois. É uma maneira muito eficiente de analisar como está meu padrão de manobras, especialmente as que precisam de referência em solo, como correções de vento. É bastante divertido ficar analisando o voo depois. A riqueza de informações que o GPS oferece é muito boa, como posição lateral e vertical (altitude), rumo, velocidade e hora exata em cada ponto plotado. Clicando na imagem acima, você pode baixar uma coleção de voos no formato KMZ.

Fechei 15 horas hoje. Espero fazer meu primeiro voo solo lá pelas 25 horas, quem sabe. Tudo vai depender da minha eficiência nos TGLs de agora em diante.

Agradeço muito ao Comandante Felipe Niche, meu instrutor, pela paciência e motivação. Certamente deve ser uma grande satisfação pro instrutor “dar asas” aos alunos também.

Conforme a coisa for evoluindo, vou postando mais.

Equinox

March 20th, 2009

Terra no equinócio

Hoje às 11h44 UTC (8h44 hora de Brasília) passamos pelo equinócio. Fiz o screenshot acima agora a pouco no Google Earth. A incidência dos raios solares está perfeitamente alinhada com os meridianos. O sol nasce e se põe rigorosamente a leste e oeste, respectivamente. Massa, né?

Estamos começando a temporada de noites mais longas que os dias no hemisfério sul. Que triste. :-(

Saiba mais na Wikipedia, claro.

Asas de um sonho

March 15th, 2009

Todo menino cresce com uma série de sonhos, sonhos esses que vão variando de acordo com a idade. Tenho vaga lembrança de querer ter sido caminhoneiro e bombeiro quando era pequeno. Já mais grandinho, tipo uns 6-7, veio o fascínio por carros. Eu devia ler mais 4 Rodas do que gibis para crianças da minha idade. Tinha um interesse também por caminhões e ônibus, especialmente os mais modernos, cheio dos reloginhos e botões. Mas nada nunca me chamou tanto atenção quanto os aviões.

Me criei no interior do Rio Grande do Sul, em Rio Grande, e como toda a cidade do interior, a presença de aeronaves era algo muito pacato. Uma ou duas vezes por dia se via um passando, o que era um acontecimento, claro. Eu lembro muito bem de que quando ouvíamos o barulho de um avião, saíamos para o pátio para abanar. Tento imaginar a cena, nós crianças olhando para o céu com caras de encanto, provavelmente sonhando em estar lá em cima fazendo o inverso.

Depois dos 13 anos veio a fase da bicicleta, onde creio que todos nós meninos dessa idade gastávamos toda a mesada para incrementar a magrela com câmbios shimano, aros de alumínio, etc e tal. Por razões óbvias de segurança, minha mãe não me deixava ir longe, muito menos pegar uma estrada de bicicleta. E meu histórico de acidentes não era baixo. :-) Me recordo de ter infringido essa “regra” umas duas ou três vezes com meus amigos, quando fomos pedalando até o aeroporto da cidade para ver os aviões. Uma vez nos deixaram entrar no hangar para ver mais de perto. Nunca esqueci essa cena. Sempre tive um encanto por tecnologia, botões, reloginhos, qualquer porcaria eletrônica. Um painel de avião é a junção perfeita de tudo isso. Além disso, eu tinha um grande fascínio por altura, ver as coisas de cima, fotos aéreas, etc. Saí daquele hangar com um sonho plantado na minha cabeça de menino: um dia eu vou pilotar um negócio desses!

Me recordo uma vez também que o Leonel Brizola visitou Rio Grande e foi feita uma passeata onde eu estava junto com meu pai no carro. Como meu pai fazia parte da comitiva que o recebera, fomos mais tarde acompanhá-lo até o aeroporto local. Creio que foi a primeira vez que eu vi um avião a jato de perto. Acho que era um LearJet. A cena daquele avião rasgando o asfalto na nossa frente ainda persiste na minha memória.

Isso tudo para mim era uma utopia, assim como outros vários sonhos que vão se formando na nossa cabeça ao longo do nosso crescimento. Sempre fui louco por estrada, viajar, conhecer outros lugares. Sempre gostei demais de geografia. Desde criança era doente por mapas e atlas. Poderia ficar horas e horas sonhando com os lugares que eu poderia conhecer daqueles mapas. Um avião poderia me levar daqui pra ali, dali pra lá, de lá pra cá… Genial! Uma característica que eu trouxe da minha infância certamente é a de um sonhador, mesmo embora eu achasse que muito disso fosse utopia, mas o simples fato de sonhar já era algo bacana pelo menos.

Ao completar 15 anos, minha família, com um esforço enorme, me deu um microcomputador, esforço esse que selou o meu destino até os dias de hoje. A minha paixão por tecnologia se acentuou de tal forma que isso naturalmente acabou por virar a minha profissão. Aquela utopia de pilotar um avião foi ficando pra trás.

Aos 20 anos, encarei o desafio de deixar a casa da família e seguir o rumo na cidade grande. Não poderia ter tomado melhor decisão na vida. Um dos pontos mais positivos dessa mudança foi a de começar a perceber que alguns daqueles sonhos de guri poderiam até se tornar realidade, que não era algo tão distante quanto eu imaginava. Como eu não tinha muitos amigos em Porto Alegre nos primeiros tempos, passava algumas tardes no aeroporto Salgado Filho (na época no terminal antigo) olhando o movimento dos aviões subindo e descendo através do vidro do terraço. Como eu queria estar dentro deles, nem que fosse como passageiro mesmo.

No ano seguinte surgiu uma viagem a trabalho, e outra, e outra, e outra, e mais outra, que rapidamente me tornei um passageiro frequente. Em poucos anos, já havia acumulado centenas de milhares de milhas em programas de milhagem, havendo passado por aeroportos em todos os cantos do Brasil e nas três Américas (ver post “Aeroportos por onde estive“). Quando que eu iria imaginar isso? O fato é que isso só aumentou minha vontade de um dia pode estar no comando daquele “pássaro”.

Como um bom sonhador, há alguns anos me despertou a curiosidade de ver que tão difícil seria se tornar um piloto. Putz, era muito caro para as minhas condições na época, mas não tão caro ao ponto de eu me conformar que nunca poderia fazer isso.

Mais alguns anos se passaram até que encontrei um colega de trabalho, Alberto, que compartilhava da mesma paixão, mas que o destino também o levara para a computação. Alberto já se virava bem nos simuladores, e eu acabei pegando gosto pela coisa também. Isso, de certa forma, acabou despertando meu interesse sobre o assunto e comecei a acompanhar vários sites e fóruns de aviação na Internet.

No início do ano passado, resolvemos verificar mais detalhadamente o que seria necessário para voarmos de verdade. O simulador já estava ficando sem graça. :-) Com todas as informações em mãos, vimos que a jornada era grande e a facada um pouco salgada, mas nada de outro mundo. Naquele momento eu já não podia mais voltar atrás. Estava a um passo de iniciar a materialização de um sonho que me acompanhava desde a pequena infância. Tomamos coragem, decidimos por fazer, e começamos a jornada.

Na aviação, tudo começa por um severo exame psicotécnico e um check up completo de saúde (física e mental). O psicotécnico foi bem pesado, muito pior que para tirar carteira de motorista. Em seguida há que fazer o check up completo de saúde em um hospital da aeronáutica. Lá fomos nós, um dia inteiro quase na Base Aérea de Canoas, com exames de sangue, urina, clínica, psiquiátrico, audiometria, eletro-cardiograma, eletro-encefalograma, raio-x, entre outros. Pelo menos não teve o tal do toque retal. Tudo certo com a saúde, saí com o meu CCF (certificado de capacidade física) classe 2, para pilotos privados. A cada 2 anos, há de renová-lo.

Antes de pensar em pilotar uma aeronave, é necessário um vasto conhecimento teórico. Decidimos fazer toda a formação no Aeroclube do Rio Grande do Sul, que possui uma das escolas aeronáuticas mais conceituadas do Brasil, tendo formado muitos dos pilotos da Varig nos velhos tempos e continua formando muita gente até hoje. Foram 6 meses de aulas todos os dias à noite, com as cadeiras de meteorologia aeronáutica, conhecimentos técnicos e motores, teoria de voo, navegação aérea e regulamentos de tráfego aéreo. O curso foi sensacional. A troca de experiência com o pessoal mais velho não tem preço. Nosso professor de regulamentos, por exemplo, está na aviação desde 25 anos antes de eu nascer, hoje um grande instrutor de todos os pilotos da Tam. Não tem dinheiro que pague assistir uma aula com alguém com essa bagagem toda. Como ele mesmo dizia, o bate-papo na aula, o que ele chamava muito corretamente de “cultura aeronáutica”, valia mais que a aula em si.

No meio do curso teórico comecei com os voos de fato, obviamente sempre com o instrutor. Antes do primeiro voo, se cria uma expectativa bastante grande, afinal há quantos anos eu sonhava com aquele momento. Mas na verdade, na hora é tanta tanta coisa pra se preocupar, que você acaba não pensando em mais nada. É como quando você aprende a dirigir, que você fica tão preocupado com o carro que esquece do trânsito. Nos meus primeiros voos, eu não arriscava olhar pro lado, porque o avião em si tomava conta de 100% da minha capacidade cerebral. Como a gente fala na computação, “o CPU está colado em 100%”.

A lei brasileira permite que você comece a voar com instrutor antes de prestar a prova teórica (que se chama de banca) na ANAC, desde que tenha o CCF. Porém, sem a banca, você não pode prosseguir com o curso e voar solo. Como eu fiquei quase um mês no exterior, perdi umas três semanas de aula no aeroclube. Baixei a cabeça e estudei muito para prestar a banca. Poucos dias antes do natal, fizemos a prova e passamos de primeira. Das 5 provas, a minha média mais baixa foi 80% e gabaritei navegação. Eu tinha me preparado para uma prova muito mais difícil. :-) Nesse instante, adquiri minha licença vitalícia de piloto privado, faltando apenas as habilitações técnicas, essas temporárias e pra cada tipo de avião (mono-motor, multi-motor, jatos…) e/ou tipo de operação (visual ou instrumentos).

Já devo andar agora pela minha décima hora de voo, já bem mais tranquilo que nas primeiras horas. Já não brigo tanto com o avião, ou ele não briga tanto comigo. Já consigo me orientar bem, voltar pro aeroclube, respirar mais, observar a paisagem, etc. Já decolo sozinho e quase pouso, com um auxílio do instrutor no toque final. Enfim, estou procedendo com o treinamento dentro dos parâmetros esperados para um aluno aplicado. Uma coisa que meu instrutor gosta muito de mim é que eu me cobro muito e sou extremamente perfeccionista. Numa atividade onde não há espaço para erros, isso pode fazer toda a diferença.

Talvez dentro de mais dez ou quinze horas, eu esteja apto a fazer o meu primeiro voo solo. O primeiro voo solo é o voo mais importante da vida de qualquer piloto no mundo. É o primeiro voo que o instrutor não está ali pra desfazer a sua cagada, para lhe dizer o que fazer. Nem que ele não faça nada, mas a simples presença do instrutor já dá uma grande tranquilidade. Confesso que já estou bastante apreensivo, muito pela minha forte auto cobrança, mas o que seja, creio que isso deixaria qualquer um bem ansioso.

Relembrando um pouco a minha infância e juventude e escrevendo este texto, eu vejo que como é possível a gente realizar muitos dos nossos sonhos, inclusive aqueles lá de criança. Uma das coisas mais importantes na nossa vida é a perseverança. De alguns anos para cá, eu amadureci uma fé inabalável de que o impossível muitas vezes é algo que plantam na sua cabeça.

Vale a pena correr atrás de um sonho. Pode ser que seja um sonho remoto, pode ser até uma utopia, na verdade. Ou não.

Asas de um sonho” é o nome dado a um museu de aviação criado pela Tam em São Carlos – SP, empresa essa fruto de um grande sonhador, o Comandante Rolim Amaro.

Veja também o post do Alberto sobre o mesmo assunto.

Feliz 2009, USA trip…

February 28th, 2009

Agora que o ano está finalmente para começar, uma vez que estamos deixando o carnaval pra trás, venho dar os meus votos de feliz 2009 a todos. Reconheço que deveria ter feito isso lá pelo final de dezembro, mas sabe como é, a falta de tempo é sempre um grande problema, então vamos usar o carnaval como pretexto pro atraso, se é que cola.

USA Trip

Na final do ano passado (2008) passei quase um mês pelos Estados Unidos. Como foi meio correria, acabei não postando nada de lá, como normalmente faço. O principal motivo, ou pretexto, para a viagem foi participar novamente da RSNA, que é um grande evento da indústria médica em Chicago, o mesmo que já havia participado em 2007, quando fui com meu colega Pablo.

O que me “forçou” a ir também foi que eu tinha umas 100 mil milhas prestes a vencer na Tam, então essa viagem foi praticamente de graça. Apenas arquei com as taxas de embarque, pois emissão de passagens com milhagem não cobre isso.

Como a Tam agora tem acordo de code share com a United Airlines, pude fazer os trechos direto com a United, fazendo só a perna Porto Alegre – São Paulo pela Tam. Nada contra a Tam, mas a United voa direto para Washington DC, onde seria a minha primeira parada. Já sofri muito aborrecimento com conexões, então nada melhor que evitá-las.

Voei para lá na semana do feriado de ação de graças, que acontece sempre na quarta quinta-feira do mês de novembro. Como o evento em Chicago começaria apenas na semana seguinte, reservei essa semana para passar uns dias na capital federal com a minha querida amiga Silvia. Fazia alguns anos que eu não a via.

É estranho passar ação de graças nos Estados Unidos, pois é o feriado mais importante do ano pra eles, onde as famílias se reúnem tudo. Assim como eu, Silvia não é norte-americana, embora viva lá, então a gente acaba se sentindo meio deslocado, pois não compartilhamos dessa cultura. A maior tradição desse feriado é comer peru na noite de quinta-feira, entre outras milhares de coisas. Tradicionalmente, cada membro de família traz algo para compor a mesa super-hiper-calórica. Apple pies, cherry pies, turkey, rice, ice cream, etc, etc…

Fomos convidados por um casal iraniano, onde trabalha uma amiga de Silvia, para a super janta, o que foi bastante agradável. Eles moram há muitos anos nos Estados Unidos, e deixaram o Irã por perseguição política, pois eram grandes pesquisadores universitários, ele cientista político. Fiquei feliz de eles terem compartilhado um pouco da história deles conosco e nos falado um pouco sobre aquele país, que vive hoje debaixo de um regime fundamentalista opressor. Naturalmente não posso comentar aqui detalhes, por uma questão ética.

A sexta-feira pós ação de graças é conhecida como black friday (sexta negra), onde milhares de lojas fazem grandes promoções. É tradição lá as pessoas passarem a noite em filas imensas aguardando a abertura das lojas às 5h00 da madrugada, para pegarem as melhores ofertas. Lembrando que as noites nessa época são sempre abaixo de zero graus célsius. Coisa de louco mesmo.

Nós não iríamos compartilhar dessa maluquice, então acordamos quase meio-dia e saímos de tarde para ver se ainda havia algo interessante. Fomos até Woodbridge, na Virgínia, onde há um grande outlet shopping, o Potomac Mills Mall. Silvia conseguiu várias coisinhas para presentear a família no natal. Eu, quase nem um pouco mão-de-vaca, comprei apenas um tênis na Nike Store, em promoção por US$ 30,00, bem barato mesmo. As lojas estavam uma bagunça, de tanta gente vasculhando o que comprar. Viva o consumismo! :-)

No sábado fomos visitar a Air Space Museum, que fica anexo ao aeroporto internacional Washington Dulles (IAD). O museu ostenta a maior coleção histórica de aviões e tralhas espaciais do mundo. Além de aeronaves, há de tudo do mundo da aviação, como vários tipos de motores, hélices, asas, protótipos, etc. Na foto ao lado está o famoso Lockheed SR-71 Blackbird. Esse exemplar aí bateu o recorde de velocidade voando de Los Angeles até Washington DC em meros 64 minutos, a uma velocidade média de 3.524 km/h, ou a mach 3.2. Além dessa pérola, há no museu um Concorde da Air France, o ônibus espacial Enterprise, o módulo de comando da Apollo 11, entre várias outras relíquias. Eu como piloto novato, fiquei fascinado, obviamente. Preciso voltar lá e passar um dia inteiro com calma, pois é muito grande. Tem até um cinema IMax com vários vídeos de aviação.

No domingo cedo voei para Chicago. Em Washington estava frio, mas um frio bastante suportável e sem neve. Em Chicago, a coisa é bem diferente. Logo que saí do terminal do aeroporto O’Hare, já previ como seriam os próximos dias. Nevava bastante e a sensação térmica andava pelos -15c, de arrepiar. Peguei a van do hotel onde me hospedei e fiquei lá esperando pelo James e pela Kimberly, que vinham de Detroit de carro. Eles chegaram 2 ou 3 horas mais tarde, pois pegaram muita neve durante a viagem.

Botamos toda a conversa em dia e adivinha onde fomos jantar? Na Churrascaria Fogo de Chão, claro, bem ao estilo gaúcho de comer bem. Eles dois são americanos e são loucos por churrasco. Nada como um amigo brasileiro os visitando para servir de pretexto para ir a uma churrascaria.

Na segunda-feira passamos o dia todo na RSNA. Diferente de 2007, dessa vez fui ao evento apenas um dia. Dei uma circulada para ver se havia algo de novo e nada me chamou a atenção. Gostaria de ter ficado a semana toda para ir mais a fundo no que estava rolando, mas como a partir desse momento eu estava de carona, tínhamos que voltar a Detroit no dia seguinte.

O estacionamento do hotel era descoberto e nas duas noites em que ficamos lá nevou bastante. De manhã a rotina era retirar o amontoado de gelo que se prendia sobre o carro. Estimo que tenha sido umas 2 polegadas, o que eles julgam ser bem tranquilo. Pra mim, já era um absurdo. :) Nas piores noites de inverno, é comum acumular 10-15 polegadas de neve. Caraca…

Tem muita gente que diz que carro com aquecimento nos bancos é frescura. Bom, depende da circunstância né. Eu estava achando isso muito útil!!!

Na terça-feira eu viajei com eles de volta pra Detroit. Antes de pegar a estrada, andamos pelo centro de Chicago para fazer umas comprinhas, claro. Let’s go shopping!! Pra variar, eu não comprei nada. Apenas ajudei a carregar sacolas. Almoçamos na Cheesecake Factory (hmmmmmmm), que fica no térreo do John Hancock Center. Caí na estupidez de pedir uma salada e um prato principal. Quando olhei o tamanho da salada, me assustei. Quando vi o prato, me assustei de novo. Era MUITA comida e MUITO boa. Saí de lá triste e com um peso tremendo na consciência, e outro no estômago. Começara ali uma reviravolta intestinal que me massacrou por vários dias.

Passei as próximas duas semanas congelando em Michigan na casa do James. Como sempre, fui maravilhosamente recebido por sua família, sempre muito hospitaleira. Me senti em casa. O dia-a-dia era basicamente sempre o mesmo, casa-trabalho, trabalho-casa. A primeira semana foi triste, com meu intestino insistindo em piorar. Procurei me manter a uma distância segura de um banheiro. Fui melhorar, após uma batelada de remédios e litros de gatorade só no sábado.

Fotinhos do clima (clique para ver outras):

Waterford -> Mackinaw CityNo domingo, como estava um pouco melhor, saímos para passear. Pegamos a estrada I-75 ao norte e fomos até Mackinaw City, percorrendo o trajeto ao lado (clique para ampliar). Aí há a Mackinaw Bridge, uma ponte pênsil enorme, com 8 km de comprimento e 160 metros de altura. É aí onde os grandes lagos Michigan e Huron se encontram. É  uma importante rota de navegação nos Estados Unidos. Do outro lado da ponte é a península alta de Michigan. Um pouquinho mais ao norte já fica a província de Ontario, no Canadá, também onde começa o Lago Superior. Fiz algumas fotos legais durante o caminho de ida. Dá pra ver bastante neve! Como se pode notar no mapa, há muito poucas cidades ao norte de Michigan. Embora o estado seja famoso por ser o berço da indústria automobilística, sediando as gigantes GM, Ford e Chrysler, mais ao norte é essencialmente um estado agrícola, grande plantador de milho. Obviamente, nesta época não se planta nada, pois está tudo congelado. É muito massa olhar aqueles campos imensos se perdendo no horizonte completamente branquinhos. Nem bactéria deve sobreviver ali por agora.

Na volta, saímos um pouco para oeste, costeando o Lago Michigan, e jantamos na cidadezinha de Harbor Springs, que fica na beira da Little Traverse Bay. É um destino famoso de veraneio dos endinheirados. É um local praticamente no meio do nada, muito bonito, natureza pra todo lado. Tem cada casa aí de cinema. Por estar junto ao lago, essa gente toda tem barco. Deve ser uma curtição e tanto no verão. Nesta época, tinha muito pouca gente, porque o frio é intenso. Mesmo assim, achamos algumas coisas abertas. Jantamos num restaurante pequeno, bem aconchegante, na beira da baía, até com atracadouro para clientes que chegam pela água. Daí, voltamos direto pra casa. Dá gosto viajar em estradas decentes. Mesmo no inverno, é muito tranquilo e seguro. Em Michigan, o limite de velocidade é de 70 mph (112,7 km/h), o que é bem razoável. Exceda o limite e logo logo surge uma sirene do além pra te multar.

Na terça-feira, dia 9 de dezembro, dei uma palestra no encontro de usuários do Michigan User Group, que é um grupo de usuários de Unix bem antigo. A palestra foi na biblioteca comunitária de Farmington Hills. O assunto abordado foi um case de sucesso da Propus sobre um cliente nosso de Manaus, no Amazonas. Os slides da palestra já estão disponíveis em PDF. Foi bem bacana. O pessoal parece ter gostado bastante, especialmente quando eu expliquei os desafios de uma grande cidade no meio da maior floresta tropical do mundo, especialmente no que tange telecomunicações. Ninguém acreditou que uma empresa com mais de 5000 computadores pode sobreviver hoje em dia com um link de Internet de meros 2 Mbps.

No início da palestra, você sempre fica um pouco apreensivo de não conseguir entregar o conteúdo com qualidade num idioma diferente do seu nativo. Perguntei depois para alguns amigos como tinha sido o “delivery” e recebi um ótimo feedback. Parece que deu pra entender tranquilamente. :-) No Peru, em agosto, tive que apresentar para 2500 pessoas em espanhol, e foi bem na paz até. Falar para 50 pessoas em inglês é bem mais fácil hehe.

No sábado voltei para Washington DC, onde fiquei mais um dia. Silvia e eu fomos jantar na Fogo de Chão, bem no centrão da capital, perto da Casa Branca. A última vez que Silvia tinha comido churrasco foi quando esteve no Brasil em 2005, então eu havia prometido isso a ela na minha passagem de retorno pela cidade como presente de natal. Chegamos lá sem reserva e estava lotado, pra variar. Tivemos que esperar quase 2 horas por uma mesa, mas valeu a pena. A comida estava excelente, atendimento de primeira, mas a conta, putz, essa doeu. Aqui está o recibo de pagamento. Com o dólar a R$ 2,50, isso dá mais de R$ 400,00.  Mas, promessa é dívida e presente não tem preço. Como diz meu amigo James, it’s only money. No dia seguinte do pagamento da fatura do cartão a gente já esquece. :-D

Saímos caminhando por alí para baixar a comida. A famosa árvore de natal de Washington (National Christmas Tree) já havia sido montada em frente à Casa Branca, na praça Ellipse. Estava muito bonito e cheio de gente, embora a temperatura estivesse na casa dos -2c. A noite estava lindíssima, com uma bela lua cheia iluminando tudo. Eu fiquei p%$@#$% da cara pois esqueci a minha câmera no hotel, próximo ao aeroporto Dulles, uns 30 km dali. Perdi umas fotos noturnas memoráveis. Até tri-pé eu tinha no hotel. Que merda! :-( Restou apenas a foto ao lado, feita pelo celular. Nada perto do que poderia ter sido feito com uma reflex.

Domingo voei de volta de Washington para São Paulo, 9 horinhas de voo. Em seguida, última perna até Porto Forno Alegre, que já anunciava o verão escaldante que vinha pela frente. Essa era a última semana útil do ano, então bastante serviço me esperava. Na semana seguinte já viajaria para Rio Grande para passar as festas com a família.

No geral, foi uma viagem bacana. Embora estivesse trabalhando também, deu para descansar durante alguns dias. E sempre é bom rever amigos, especialmente quando estão longe.