Machu Picchu #2 e o Vale Sagrado dos Incas

November 23rd, 2008

Finalmente o último relato, sim, bastante atrasado. :-( Mas antes tarde do que nunca.

Ao chegar em qualquer sítio arqueológico, os guias vão sempre lhe metralhar de informações, o que é legal e tal, mas tem horas que você quer apenas ficar em silêncio admirando a paisagem. É assustador a quantidade de guias em Machu Picchu, falando diversos idiomas e com grupos de tudo que é canto do planeta. Afinal, é um dos lugares mais visitados do mundo. Nosso guia Johnny era bem gente boa, explicava as coisas com um certo humor e dava tempo para todo mundo tomar fotos, admirar, etc.

Ninguém sabe ao certo a origem de Machu Picchu, o que torna a coisa mais interessante ainda. É curioso ouvir a opinião dos locais, que geralmente são bastante divergentes. Existem várias lendas, umas mais concretas, outras mais divinas. Cada um acredita no que quiser. De acordo com pesquisas científicas, sabe-se que a cidade foi criada no século XV, por volta do ano de 1460. De todas as grandes construções Incas, Machu Picchu foi a mais moderna e supostamente a mais sagrada.

Quando os espanhóis chegaram no início do século XVI, eles dizimaram os Incas e destruíram muitas de suas construções. Em Cusco, por exemplo, há várias construções coloniais que foram feitas sobre os templos Incas, para afirmar a superioridade dos “conquistadores”. Porém, os espanhóis nunca encontraram Machu Picchu, e a cidade ficou perdida por séculos, conhecida apenas por agricultores da redondeza, que não davam bola pro local, pois era de difícil acesso e não servia muito pra agricultura.

Sabendo da possível existência da cidade sagrada, o historiador explorador americano Hiram Bingham, com a ajuda dos agricultores locais, achou a cidade abandonada em 1911 e anunciou o fato para o mundo. Machu Picchu sofreu então um grande trabalho de limpeza e em seguida foi montada uma grande estrutura de acesso, com linha férrea e uma estrada de terra pra subir a montanha, assim se tornando umas das atrações turísticas mais importantes do mundo, e a principal fonte de renda do Peru. Bingham levou toda a fama de o “descobridor”, mas de acordo com os locais, ele não passava de um explorador atrás de fama e dinheiro. Bom, certamente o conseguiu e de certa forma teve seu mérito.

Das teorias sobre o que aconteceu com a cidade, se ouve de tudo, como uma grande epidemia que matou todo mundo, mas curiosamente nunca foi encontrado nenhum fóssil por ali; uma possível guerra entre os Incas e os conquistadores, mas curiosamente tudo estava intacto e não havia rastro de sangue… A teoria que mais se sustenta é que os Incas, ao saber da invasão espanhola, que já tinha chegado em Cusco e arredores, abandonaram a cidade voluntariamente e fecharam todos os seus acessos para protegê-la, pois era o sítio mais sagrado deles. Provavelmente retornaram em direção a Cusco, onde foram todos mortos pelos espanhóis, que então nunca ficaram sabendo de Machu Picchu. O único acesso que existia nessa época era a famosa Trilha Inca.

Enfim, há muito o que ler (e escrever) sobre Machu Picchu, e não é o propósito deste post servir como uma referência. Certamente vale mais a pena ler o artigo da Wikipedia sobre o assunto.

A visita à cidade é de certa forma bastante rápida. Se gasta muito mais tempo para chegar lá e voltar do que se gasta na visita em si. Por volta das 14h00 já havíamos descido de volta a Machu Picchu Pueblo, onde almoçamos e ficamos passeando. Veja algumas fotos da cidadela, que é super interessante e bem pequeninha. Diferente de Cusco, tudo é extremamente caro por aqui. Como a grande maioria dos turistas vem de países ricos, pra eles é bem tranquilo. Nós sentimos a diferença. A estrutura é bem decente, com vários restaurantes bons, pousadas bem arrumadas e artesanato por todo lado, claro.

Dormimos cedo, pois tínhamos que estar na estação de trens para tomar o primeiro trem para Ollantaytambo, que partia às 5h30. Chegamos na estação antes das 5h00 e já havia fila. A viagem de volta foi bem tranquila e dormimos boa parte do tempo. Chegamos na estação de Ollantaytambo pouco depois das 8h00. Nosso guia, Jonathan, já estava nos esperando conforme o combinado, para nos conduzir pelo Vale Sagrado e então de volta a Cusco.

Normalmente as visitas ao Vale Sagrado dos Incas sempre são feitas no sentido Cusco - Ollantaytambo, partindo de manhã de Cusco. Nossa ideia era fazer do mesmo jeito, porém tivemos que mudar nosso plano para se encaixar com a disponibilidade do trens. No fim ficou até melhor, porque ao fazer o caminho no sentido inverso, pegamos quase todos os sítios com bem pouca gente, então deu pra aproveitar bem mais, especialmente para fotografia.

Começamos pelo próprio Sítio Arqueológico de Ollantaytambo, que fica bem próximo à estação de trens. Como pode ser visto nas fotos do local, os Incas construíram nas colinas diversas terraças. Dizem que elas foram feitas para experimento de plantio em altitudes diferentes. Com isso, eles podiam determinar qual a melhor altitude, e consequentemente temperatura, que cada alimento cresceria melhor. Não é por acaso que Ollantaytambo é também conhecida por ter o melhor milho do Peru, e talvez do mundo. É incrivelmente grande e saboroso. Se planta também muita batata por aí, e eles dizem que há mais de 400 espécies diferentes de batata na região.

Uma das coisas mais curiosas é que eles armazenavam a produção em pequenas cavernas abertas nas rochas, como pode ser visto na foto ao lado. Dizem que isso era feito devido à boa ventilação do local, fazendo com que o alimento durasse mais. Eles construíram também sistemas de ventilação nas rochas para melhorar ainda mais o efeito.

Partimos daí em direção a Pisaq (13°24′20.83″S 71°50′29.18″W), que fica a uns 50 km a leste de Ollantaytambo, já na estrada asfaltada. No caminho, passamos por várias cidadezinhas legais, como Urubamba, Calca, Coya, entre outras. Pisaq, ou Pisac, foi a minha maior surpresa da viagem toda. O sítio é imenso e extremamente bonito. Foi construído bem antes de Machu Picchu, porém não se sabe exatamente quando. Ouvimos falar em algo como o século XII. Nota-se bem que o estilo de construção não é tão moderno, as pedras não são tão bem talhadas, etc. É impressionante ver as diferenças no processo de construção dos locais. Percebe-se claramente o quanto a coisa ia evoluindo com o passar dos anos.

Pelas vistas, dá para notar o altura do lugar. A altitude média do sítio é de 3500 metros e durante a visita é um sobe e desce infernal. De todos os lugares que visitamos, esse foi onde eu mais senti a altitude e os joelhos. Não espere por escadas regulares com corrimão por aqui, muito menos elevadores e escadas rolantes. Isso não é Disneylândia. O negócio é pedra irregular mesmo, adrenalina! Como recompensa, uma natureza estonteante. A vista lá de cima é de arrepiar.

O Peru é muito conhecido por Machu Picchu, mas na verdade há muito mais o que ver. Uma pena que o turismo foque tanto em uma coisa só. Não deixe de visitar Pisaq com calma. Dê uma olhada no album de fotos feito lá.

Descemos das ruínas para o centro de Pisaq, onde tem um famoso mercado popular aos domingos, mas passamos aí na segunda-feira, aí tem bem menos gente. Almoçamos por aí com calma e visitamos algumas tendas. Mais e mais artesanato, pra variar.

Saindo de Pisaq, no caminho de volta a Cusco, paramos em Awana Kancha, que é meio que um sitiozinho bem legal com uma criação dos animais mais tradicionais do Peru: a lhama, alpaca, vicunha e guanaco. As primeiras duas são muito dóceis, e você pode caminhar no meio delas tranquilamente, inclusive dando-lhes comida. Já a vicunha e o guanaco são bastante selvagens, então ficam numa área isolada um pouco a distância.

Chegamos em Cusco no final da tarde mortos de cansado. Descansamos um pouco, saímos pra jantar e capotamos. Não tínhamos nada marcado para a terça-feira 19, então tiramos o dia para passear por Cusco, visitar alguns museus, etc. Complementei o album de Cusco com as fotos do dia 19, algumas bem interessantes.

Na quarta-feira 20, voamos de volta para Lima, onde daríamos cada um uma palestra naquela noite na Universidade Inca Garcilaso de la Vega. Na decolagem em Cusco, vi bem por que a pista do aeroporto tem quase 4 km de comprimento. Com o ar extremamente rarefeito nessa altitude, fica muito difícil acelerar o avião, por mais motor que se tenha. Voamos num quadri-jato BAe 146 da British Aerospace, avião muito tosco, asa alta, quadro motores turbo-fan, mas bem gostoso de voar. Mesmo com os 4 motores full power, comemos quase toda a pista para decolar e ganhamos altitude muuuito vagarosamente sobre um pequeno vale a sudeste de Cusco. Ao redor, montanhas imensas cercando tudo. Só após livrarmos um 20.000 pés de altitude, demos a volta aproando Lima.

Quando pousamos em Lima, os pulmões agradeceram por respirar ar úmido e com muito oxigênio. A diferença é brutal. O pessoal da universidade já estava nos esperando. Nos levaram até o hotel para deixar as bagagens e alguns minutos mais tarde fomos para o local das palestras. Era um auditório fechado dentro da universidade e estava bastante lotado. Imagino que tinha umas 200 pessoas no máximo. Demos as mesmas palestras apresentadas no CONEIS na semana anterior. Como tinha bem menos gente, foi mais bacana e interativo.

O pessoal da universidade, especialmente Santiago e Evelyn, que organizaram tudo, foi extremamente receptivo. Depois da palestra, saímos todos para jantar com mais um pessoal da universidade. Mais um pouco de comida típica, sempre maravilhosa. Saindo daí, fomos para o hotel e dormimos pouco, pois tínhamos que estar no aeroporto às 5h30 no máximo. Nosso voo de volta para o Brasil decolou logo após às 7h00 de Lima. Voamos de volta num Boeing 767-300 da Lan, bastante confortável e com um serviço de bordo muito bom. Parabéns pra Lan. Pousamos tranquilamente em Guarulhos às 13h50. Bagagens, aduana, tudo tranquilo. Peguei o voo para Porto Alegre às 16h45 e Tatiana foi de ônibus do aeroporto direto pra Campinas, encerrando os 12 dias de viagem pelos Andes.

Essa foi uma viagem que eu queria fazer já havia algum tempo. Sempre li bastante a respeito do Peru, especialmente sobre sua cultura e história. Meu tio Iram, grande viajante, já havia estado lá e também fez boas recomendações. Definitivamente é um país que merece ser visitado. É uma viagem bastante barata e muito rica culturalmente, uma viagem que certamente faz você rever alguns valores, prestar atenção nas coisas simples e principalmente na natureza. É muito bonito ver um povo que possui um grande amor por sua terra e sua nação, certamente algo que não se vê por aqui no Brasil, exceto em épocas de copa do mundo.

Fiquei muito feliz com a hospitalidade. Muitas pessoas ficavam bastante curiosas, e até muito contentes, por eu falar espanhol com fluência e entender perfeitamente 100% do que eles falam. Isso é uma coisa super legal e me sinto muito feliz por ter tido a oportunidade de aprender (e continuo estudando) espanhol bem. Seguramente a minha experiência com essa viagem não teria sido a mesma caso contrário.

O grande valor em uma viagem como essa é saber que você voltou melhor do que foi. Para muitos pode parecer mais um país pobre da América do Sul. Eu diria que certamente eles têm muito a lhe ensinar. Vá e veja com os próprios olhos. Depois me conte como foi a experiência. ;-)

Bon voyage.

Machu Picchu

October 19th, 2008

A correria andou grande nas últimas semanas e não tenho tido tempo para escrever. Mas vamos lá. Quanto mais o tempo passa, mais a gente esquece, e os relatos acabam não ficando tão fiéis.

Na sequência do post anterior, o motorista de táxi chegou no hotel para nos pegar às 5h20 da madrugada. Difícil acordar a essa hora com tanto frio. A temperatura nessa hora do dia está normalmente ao redor de zero graus. Nosso trem partindo de Ollantaytambo era às 8h00, então tínhamos 3 horas para percorrer o trajeto entre Cusco e Ollantaytambo. Bastante razoável.

Esse mesmo caminho pode ser feito também por via férrea, mas não é recomendável. Como falei antes, Cusco se encontra numa altitude média de 3400 metros. Já Ollantaytambo está situado a 2800 metros, pois está no Vale Sagrado dos Incas. A descida é extremamente íngreme, pois a média de altitude ao redor do vale é de 3800-4500 metros, e o vale é incrivelmente estreito. Literalmente uma fenda no meio da cadeia das imensas montanhas andinas. Em função disso, a viagem de trem é muito demorada, pois o trem precisa andar muito devagar e fazendo curvas com muito mais raio que um carro. Além disso, é quase impossível conseguir passagem de trem nesse trecho na alta temporada, pois são poucas as frequências diárias.

Partimos do hotel algo como 5h35 em direção à Urubamba (-13° 18′ 39.90″, -72° 6′ 54.77″), que é a cidadela que dá nome ao famoso Rio Urubamba, que percorre todo o vale. A estrada que vem de Cusco desce o vale chegando em Urubamba, que fica à noroeste de Cusco, 27km em linha reta, embora a distância percorrida seja o dobro disso ou mais, por causa da estrada sinuosa. De Urubamba para Ollantaytambo o caminho é plano, todo a 2800 metros, em um trecho de 20km mais ou menos.

Salkantay

Salkantay

Durante a viagem, ainda antes da descida para o vale, podemos ver a magnificência dos picos andinos, especialmente o Monte Salkantay (foto ao lado), com sua incrível altitude de 6271 metros, ainda que ele seja apenas o décimo quinto pico mais alto no Peru. Veja outras fotos desse caminho.

Chegamos em Ollantaytambo (-13° 15′ 47.30″, -72° 16′ 10.49″) às 7h00. Ollantaytambo é o último ponto da estrada no vale, pois daí em diante, até Machu Picchu, a colina é muito estreita e não há condições para se construir uma estrada. Há apenas a linha férrea que vai sempre margeando o Rio Urubamba. O mesmo taxista, e também guia turístico, Jonathan, iria nos buscar no próximo dia para fazermos o Vale Sagrado dos Incas. Combinamos com ele certinho o horário e ele se foi de volta a Cusco.

Como tínhamos ainda algum tempo e estávamos com fome, pois saímos do hotel antes do café da manhã, tomamos um desalluno num barzinho próximo à estação de trens. Logo de cara já deu pra perceber que o povo de Ollantaytambo é muito amigável e extremamente receptivo. É de se esperar de fato, pois para qualquer lado que se olhe, é uma quantidade incrível de turistas.

Nosso trem partiu às 7h50 (10 minutos adiantado) em direção à Machu Picchu Pueblo (13° 9′18.53″S 72°31′27.05″W), antes mais conhecida como Aguas Calientes. É fácil perceber o porquê de não haver uma estrada ali. A coisa realmente é muito fechada. Em vários trechos eu perdia a sincronia do GPS, pois o aparelho não conseguia receber o sinal de três satélites pelo menos, uma vez que era difícil ver uma boa porção do céu. A viagem de uns 45km tarda em torno de 1h30min.

Desembarcamos em Machu Picchu Pueblo às 9h15 e saímos caminhando para achar nosso guia, que supostamente estaria nos esperando na estação de trens. Esperamos algum tempo e nada, então resolvi ligar pro camarada. Celular desligado, puta que pariu. Bom, resolvemos achar o hotel e depois tentar contato com o guia por telefone novamente.

Machu Picchu Pueblo é um pequeno povoado situado a 2100 metros de altitude. A cidadela fica no pé de Machu Picchu. Como não há infra-estrutura em Machu Picchu, todo mundo se hospeda, se alimenta, etc, em Machu Picchu Pueblo. Para onde se olha, é só restaurantes, hotéis, pousadas, etc, tudo em função dos milhares de turistas que chegam na cidade todos os dias. Para se ter uma ideia, a média é de 3 a 4 mil visitante todos os dias, de todos os cantos do planeta.

Como são tantos hotéis e tudo com nomes semelhantes (geralmente algum nome Inca), entramos no hotel que julgamos ser o nosso e perdemos um tempão ali pois não achavam a nossa reserva. Claro, estávamos no hotel errado! Quando a Tatiana achou o voucher, a atendente nos deu a má notícia. Enfim, caminhamos mais alguns poucos metros e chegamos no hotel que de fato era o nosso. Como chegamos cedo demais, não havia quarto vago. A diária oficialmente começaria apenas ao meio-dia. A recepcionista pediu logo para o pessoal da limpeza agilizar a entrega de um quarto para que pudéssemos pelo menos largar as nossas tralhas e subir pra Machu Picchu. Em 20 minutos, estávamos no quarto, finalmente.

Respirar a 2100 metros nunca foi tão maravilhoso, comparado com os 3400 metros que estávamos em Cusco. Dava muito gosto de encher o pulmão de ar e sentir um pouco mais de oxigênio entrando em cada tragada.

Nosso guia, Johnny

Após descansar um pouco, tentamos contato com o guia novamente. Ele nos atendeu e disse que esteve nos esperando na estação quando o trem chegou. Não quis entrar no mérito e perguntei onde podíamos achá-lo. Combinamos de nos encontrar na estação dos ônibus que sobem para Machu Picchu dentro de 15-20 minutos. Assim o fizemos. 10h20 chegamos na estação de ônibus e encontramos o guia, Johnny, figura muito gente fina, que nos guiou por toda a visita à cidade sagrada.

Vale Sagrado dos Incas

Vale Sagrado dos Incas

Machu Picchu está situado a 2450 metros de altitude, quase 400 metros acima de Machu Picchu Pueblo. Esse trajeto só pode ser feito por um ônibus especial que parte a cada poucos minutos. A subida é um zigue-zague total, e quanto mais subíamos, mais magnífica ficava a vista do vale sagrado (veja foto ao lado). A única alternativa ao ônibus, que custa US$ 14,00 ida-e-volta (assalto!), é subir a pé, o que leva em torno de 1h30min e um esforço físico enorme, pois é uma subida muito íngreme.

Poucos antes das 11h00 estávamos no portal de entrada. Ali deixamos os pertences que não íamos utilizar, como casacos, etc. Por via das dúvidas, eu subi com um casaco, pois as mudanças de temperatura em altitude são muito bruscas. Como estava um sol animal, deixamos as roupas quentes no maleiro. Na sequência, organizamos o nosso grupo com o mesmo guia, que era em torno de 12 pessoas, todos latinos. Só nós dois éramos brasileiros. Havia colombianos, peruanos e costa-riquenhos também no grupo.

Passamos o portal de entrada e seguimos pelo trajeto recomendado, que começa por uma vista geral de Machu Picchu a partir de um ponto alto da cidade. Esse foi o momento que mais senti falta da minha lente grande angular 28mm, que esqueci em casa em função da correria. A lente que eu estava usando na foto ao lado era 45mm, o suficiente para não caber a cidade toda no mesmo quadro. Triste! :-(

Ficamos um tempo parado aí admirando a paisagem. Muitas pessoas me disseram, assim como li muito na Internet, que ao se chegar em Machu Picchu, especialmente nesse ponto onde fiz a foto ao lado, se sente uma energia inexplicável. Talvez seja isso que leve tanta gente a Machu Picchu. O fato é que eu não senti nada disso, o que não me estranhou, claro, pois sou bastante cético. Mesmo não sentindo a tal energia dos deuses, fiquei maravilhado com o que estava vendo. A construção da cidade é majestosa. Logo surge a primeira pergunta: como aqueles doidos construíram isso aqui em cima, carregando essas pedras gigantes? Certamente deviam ter algum propósito muito forte e divino, porque deve ter dado um trabalho e tanto.

Para mim, nada que o homem possa ter construído chega aos pés do que a mãe natureza construiu. Na verdade, eu estava muito mais encantado com a beleza natural daquele monte de montanhas desenhando um cenário estonteante, do que com a cidade em si. Eu sempre fui louco por montanhas e nunca tinha estado tão perto de algo tão impressionante. A altura dos picos é impressionante. Só por isso, a viagem toda já vale a pena. Isso sim é coisa de Deus!

As oportunidades fotográficas em Machu Picchu são incontáveis. Decidi não metralhar muito para não sofrer demais depois tratando tudo. Fui fotografando numa linha mais seleta e apagando algumas coisas na própria câmera, já fazendo uma pré-seleção. O resultado final está na galeria de fotos de Machu Picchu e me pareceu bem bacana até.

No próximo post, vou falar um pouco mais na cidade e do passeio por ela, e emendo na sequência o Vale Sagrado dos Incas. Já adiantando, esse último foi uma grande e agradável surpresa.

Abraços.

Horário de verão tupiniquim, versão técnica

October 4th, 2008

Seguindo o meu último post, quero falar um pouco sobre a importância do relógio, especialmente nos dias de hoje, de um mundo interconectado.

Antes de tudo, que horas são?

O meu relógio está marcando aqui 21h25. É essa a hora certa? Se eu ligar para um amigo agora em Seattle, ele vai me dizer 17h25, em Londres 1h25 da madrugada. Que confusão, eu só quero saber que horas são. Se a resposta foi qualquer hora + 25 minutos, está correta. Tudo depende de onde a resposta está partindo!

Como o mundo inteiro pode se coordenar com essa bagunça de fusos horários, horário de verão cuja regra varia de região pra região, e outras peripécias, como fusos horários de 15 e 30 minutos de separação, etc? Para isso existe o Tempo Universal Coordenado, o UTC, ou GMT (Greenwich Mean Time), ou ainda “Zulu Time”. É importante salientar que a hora UTC nunca varia. Sempre anda para frente na mesma frequência, perfeitamente alinhada com o sol no meridiano zero.

É em função dessa previsibilidade e uniformidade que é a hora utilizada por muitos sistemas no mundo. Toda a aviação no mundo, inclusive aqui no Brasil, por exemplo, só fala UTC. Grande parte dos sistemas na Internet são baseados em UTC. Grandes empresas com sedes em vários países só operam com referências UTC, e assim por diante…

Vários países no mundo possuem horário de verão, por várias razões, principalmente para economizar energia. Não vou entrar no mérito da questão. Os países com governos com algum nível de inteligência possuem regras repetitivas definindo o dia que o horário de verão começa e termina. Não é o caso do Brasil, infelizmente, que nunca teve uma regra, e agora que tem uma, é quase enigmática, baseando-se no calendário lunar. Acredite, não estou brincando!

O que muita gente se confunde é que na verdade não existe horário de verão. O que existe é fuso horário de verão. Um país, ou uma região, quando entra no horário de verão, na verdade está “se mudando” para o fuso horário seguinte. No caso do Brasil, os estados que atendem o horário de verão estão normalmente em UTC-3. No horário de verão, estão em UTC-2. A hora de referência, UTC, é sempre a mesma. Varia apenas o fator de correção em relação ao UTC.

A confusão técnica está em não sabermos quando essa mudança vai acontecer, pois dependia de um canetasso do Presidente.

Considerando que, de acordo com a regra publicada em 2007, parte do Brasil foi para o horário de verão no segundo domingo de outubro e; este ano a regra mudou para o terceiro domingo de outubro, sendo publicada no início de setembro apenas, vamos a alguns exemplos de problemas que isso ocasiona:

Exemplo 1, uma reunião:

No dia 31 de agosto, eu em Porto Alegre marco uma reunião para o dia 14 de outubro às 11h00 da manhã (hora de Porto Alegre) com minha amiga Fernanda que mora em Zurich, portanto 15h00 para ela. Os sistemas de agendamento obviamente vão gravar isso em UTC, para não haver confusão. O sistema consulta o regramento de hora de verão e verifica que no dia 14 de outubro às 11h00 vai ser 13h00 UTC, pois nesse dia Porto Alegre estaria no horário de verão. Reunião marcada. O governo publica a regra dizendo que o horário verão começa dia 19 de outubro. Chega o dia 14 de outubro 11h00 local, 14h00 UTC, 16h00 em Zurich. Ooops, acho que estou uma hora atrasado! Entenderam o drama?

Exemplo 2, aviação:

Este é um exemplo real que aconteceu comigo:

Em agosto em 2006, eu comprei uma passagem da American Airlines para Dallas num voo partindo de São Paulo dia 22 de outubro. Por razões óbvias a aviação opera toda em UTC, e assim são os planos de voo. O plano do voo que eu comprei previa decolagem às 0h30 UTC. Em agosto, os sistemas da American Airlines previam que 22 de outubro seria horário de verão no Brasil, logo aplicaram uma diferença de 2 horas em relação ao UTC, me vendendo um voo que partiria portanto às 22h30 hora local, pois por lei as passagens têm que ser emitidas em hora local, o que faz sentido até. Após eu ter a passagem em mão, o governo no auge de sua estupidez posterga o início do horário de verão para 5 de novembro, pois as ultra-modernas urnas eletrônicas não suportavam isso (claro, com essa bagunça!). Se o plano de voo da American Airlines era para às 0h30 UTC e agora a diferença horária era de 3 horas e não 2, meu voo consequentemente seria às 21h30, correto? A Tam, onde voei de Porto Alegre pra Guarulhos, também registra todos os seus planos de voo em UTC, mas eles usam como referência a hora local, então mantiveram seus voos travados na hora local, ajustando a UTC, o que é razoável para voos domésticos. Resultado, a Tam atrasou todos os seus voos em uma hora em relação ao UTC para manter a hora local e todo mundo perdeu as suas conexões no aeroporto de Guarulhos, causando um prejuízo absurdo para todo o sistema de aviação, que teve que fazer um replanejamento monstruoso de slots e escalas de tripulação e aeronaves para cumprir um canetasso do Presidente.

Como de costume, publiquei o arquivo com a mais nova regra, desta vez mais confusa do que nunca, do nosso horário de verão. Pra simplificar a jogada no Linux, fiz um script que faz a operação toda. Faça o seguinte logado como root:

wget http://hackers.propus.com.br/~marlon/dst/update_dst.sh
bash update_dst.sh

O script vai baixar automaticamente outro arquivo, o southamerica, onde estão as regras que são válidas até 2100, isso se não mudar tudo de novo, é claro.

Para os curiosos, eu fiz um script em Python que calcula o término do horário de verão de acordo com a nova lei para qualquer ano.

Os usuários Windows podem baixar este arquivo de registro e executá-lo em seu computador. Ele vale apenas para 2008. Você deve verificar na sua configuração de relógio se o fuso horário está certo para -03:00 Hora de Brasília e se a opção para ajustar automaticamente para o horário de verão está marcada.

ATENÇÃO: se você quiser mudar para o horário de verão manualmente, jamais mexa no relógio. Altere o fuso horário para -02:00 Fernando de Noronha então. Lembre-se que a sua hora UTC nunca pode mudar.

Boa sorte.

Horário de verão tupiniquim

October 4th, 2008

Todos os anos sempre foi a mesma confusão. O governo brasileiro indo na contra mão de todas as lógicas práticas adotadas por muitos países, a cada ano definiu as datas para o início e fim do polêmico horário de verão semanas antes de seu início, mudando a lógica todos os anos por razões inexplicáveis, causando prejuízos imensos para a economia nos dias de hoje, onde muita coisa é baseada em relógio e esses precisam estar sincronizados corretamente não apenas com a hora presente, mas também com o calendário futuro.

Numa tentativa desastrada de acabar com a confusão de ter uma regra diferente a cada ano, a Presidência da República publica no último dia 8 de setembro o Decreto número 6.558. Quando eu li esse texto, simplesmente não pude acreditar. Se alguém tivesse me contado, eu juraria que era piada. A regra se resume assim:

“Art. 1o: Fica instituída a hora de verão, a partir de zero hora do terceiro domingo do mês de outubro de cada ano, até zero hora do terceiro domingo do mês de fevereiro do ano subsequente, em parte do território nacional, adiantada em sessenta minutos em relação à hora legal.”

Fantástico, finalmente! O governo estaria de parabéns, não fosse a mais estúpida exceção:

“Parágrafo único. No ano em que houver coincidência entre o domingo previsto para o término da hora de verão e o domingo de carnaval, o encerramento da hora de verão dar-se-á no domingo seguinte.”

Muitos devem estar se perguntando “qual o problema?”. À primeira vista, a regra pode parecer simples, mas para quem não sabe, o dia do carnaval é 47 dias antes da páscoa. Como o carnaval é numa terça-feira, o domingo de carnaval acontece 49 dias antes da páscoa. A páscoa, por sua vez, acontece no primeiro domingo após a primeira lua cheia que ocorre depois do equinócio de outono (ou primavera no hemisfério norte), ou seja, se baseia no calendário judaico (lunar) e não no calendário gregoriano. A Pessach (páscoa judaica) acontece sempre no dia 14 do mês judaico de Nissan.

Todos os sistemas operacionais modernos e até mesmo milhares de equipamentos embarcados possuem facilidades para se ditar as regras de entrada e saída do horário de verão, para que isso seja feito automaticamente sem intervenção humana a cada ano. A maneira como essa regra é implementada se baseia estritamente no calendário gregoriano, obviamente. Algo como:

Regra clara na Europa:

  • Início: último domingo de março às 1h00 UTC
  • Fim: último domingo de outubro às 1h00 UTC

Regra clara nos EUA e Canadá:

  • Início: segundo domingo de março às 2h00 hora local
  • Fim: primeiro domingo de novembro às 2h00 hora local

Uma sugestão absolutamente lógica para o Brasil:

  • Início: terceiro domingo de outubro às 0h00 hora local
  • Fim: terceiro domingo de fevereiro às 24h00 hora local

Há um artigo interessante na Wikipédia falando sobre o cálculo da data da páscoa, que por muito tempo foi praticamente um enigma. Vários algoritmos surgiram para solucionar o problema, mas todos bastante complexos.

Uma das coisas mais importantes para a economia e a produtividade em geral é a simplicidade dos processos. Tudo que é complicado naturalmente custa mais e torna tudo menos produtivo. Vide a burocracia, ou burrocracia, tão conhecida de nós brasileiros.

Me entristece ver coisas assim quando o mundo está cheio de bons exemplos simples.

“Existem apenas duas coisas infinitas - o Universo e a estupidez humana. E não tenho tanta certeza quanto ao Universo.”

Albert Einstein

Cusco, dia 2

September 14th, 2008

Dia 16, nosso segundo dia em Cusco, tínhamos a obrigação de acertar a ida à Machu Picchu. O tal agente de turismo ficou de ligar e não ligou. Liguei para o cara e a mesma enrolação, então decidimos desistir e procurar uma alternativa pela Plaza de Armas mesmo. Basta você pôr seus pés na Plaza de Armas para uma multidão de agentes de turismo pular sobre você, oferecendo todos os pacotes turísticos possíveis. Pegamos alguns papeizinhos para ver as opções. Na verdade era tudo igual e fizemos a escolha de forma muito racional, pelo uni-duni-te.

Chegamos na agência do Sr. Fabian, velhinho peruano muito gente boa e super atencioso. Explicamos a situação, que tínhamos os dias contados e tal e analisamos as possibilidades. Ele comentou o que já sabíamos, que o mais complicado era ter o ticket de trem. Tendo isso em mãos, o resto seria barbada. A PeruRail só vende tickets sem intermediários, então tomamos um táxi e fomos para a estação ver o que havia. Conseguimos vaga no trem de partiria de Ollantaytambo (13°15′47.30″S, 72°16′10.49″W) no domingo às 8h30, chegando em Machu Picchu Pueblo (Aguas Calientes - 13° 9′18.53″S, 72°31′27.05″W) antes do meio-dia. Não havia volta no mesmo dia, então conseguimos vaga no trem que partiria de lá segunda-feira às 5h30 na manhã para Ollantaytambo. No início do nosso planejamento da viagem, consideramos a hipótese de dormir em Machu Picchu Pueblo nesse dia, então Tatiana já tinha uma reserva num hotel lá. :-) Finalmente resolvemos o principal problema, que era o do trem. Voltamos ao Sr. Fabian com os tickets em mão para acertar o resto dos detalhes.

A grande maioria dos trens para Machu Picchu parte de Ollantaytambo, e não de Cusco. Ollantaytambo está a 2800 metros de altitude e Cusco a 3400 metros. Essa descida é muito lenta de trem, então há poucas frequências por dia. O melhor é ir de carro até Ollantaytambo, que é onde termina a estrada. Daí em diante, não existe outra alternativa que não trem. Como o caminho é mais plano até Machu Picchu Pueblo (2400 metros), há mais frequências diárias nesse trecho.

Montamos o seguinte pacote então com o Sr. Fabian: ida de táxi de Cusco a Ollantaytambo, ticket do ônibus para subir e descer de Machu Picchu, guia turístico em Machu Picchu, volta de táxi na segunda-feira de Ollantaytambo a Cusco fazendo todo o Vale Sagrado dos Incas de forma reversa. O motorista do táxi seria um guia turístico habilitado. O pacotão todo saiu uns US$ 310,00 pra nós dois, já com as taxas de entrada a Machu Picchu, que é US$ 45,00 por cabeça. Facada! O trem ida-e-volta pra nós dois ficou US$ 182,00, super facada também!! Com isso tudo resolvido, ficamos bem mais aliviados. Seria o fim da picada ir ao Peru, ir a Cusco e não ir a Machu Picchu por causa de um detalhe. Mesmo sabendo que vou voltar lá outras vezes, não queria perder esta oportunidade.

Como tínhamos praticamente todo o sábado livre, compramos um city tour de ônibus para conhecer mais a região ao redor de Cusco. Se você for a Cusco, não menospreze um city tour. É super barato, como US$ 15,00, e vale muito a pena. Infelizmente, muita gente acha que o Peru, especialmente a região de Cusco, é só Machu Picchu. Tem muito mais coisas fantásticas pra conhecer. No final dos relatos, eu falo melhor sobre isso e a minha opinião.

A primeira parada do tour foi no Qorikancha - Templo do Sol (13°31′12.69″S, 71°58′32.42″W), que na época Inca foi o templo mais importante da cidade de Cusco. Depois da chegada dos Espanhóis, eles construíram o Convento de Santo Domingo sobre o templo. Legal o lugar, mas nada demais.

O destino seguinte foi Saqsaywaman (13°30′27.84″S, 71°59′0.01″W), que foi uma fortaleza cerimonial dos Incas, construída no século XV. O lugar é todo feito tradicionalmente com pedra sobre pedra, sem nenhum tipo de rejunte. É assustador a perfeição do encaixe das pedras, ao ponto de não entrar uma simples agulha entre elas. A técnica de corte e polimento das pedras pelos Incas é impressionante. Clique na foto ao lado o observe bem os encaixes e o tamanho delas, sempre levando em consideração que isso foi feito há mais de 500 anos. Os guindastes foram criados bem depois disso. Há um artigo na Wikipedia bem interessante sobre o lugar.

Na sequência, fomos ao Q’enqo (13°30′31.70″S, 71°58′14.30″W), que foi um anfiteatro Inca, também usado para armazenar a Chicha, que é uma famosa bebida fermentada feita de milho, muito boa, muito servida até os dias de hoje.

Seguimos então até Tambomachay (13°28′51.27″S, 71°57′52.71″W), que é um sítio arqueológico que foi destinado ao culto da água, onde os Incas tomavam seus banhos sagrados em fontes de água que descem dos picos nevados. O mais interessante é que as fontes estão funcionando perfeitamente até hoje. O complexo é feito de vários canais de água. Há um certo canal sagrado que se divide em outros dois secundários, os quais jorram precisamente o mesmo fluxo de água. Coloque um copo em cada e eles vão se encher exatamente ao mesmo tempo. Tambomachay foi o ponto mais alto de toda a nossa viagem ao Peru, onde atingimos 3800 metros acima do nível do mar.

Na volta ao centro de Cusco, paramos para ver uma vista bonita logo após o pôr do sol. Eu estava observando as montanhas ao redor, quando milagrosamente, olha quem vinha por trás delas, a Lua Cheia. De arrepiar!! Algumas pessoas não acreditaram no que estavam vendo. Seguramente uma das visões mais lindas que eu já vi na minha vida. São coisas que só a natureza pode proporcionar.

Chegamos no hotel bastante cansados, jantamos e dormimos cedo. 5h30 da manhã de domingo o taxista passaria no hotel para nos apanhar e seguir até Ollantaytambo, assunto do próximo post.

Saludos!